Quando o trabalho faz uma mulher duvidar de si mesma

O assédio moral raramente acontece de uma vez. Ele se instala aos poucos. Primeiro, a mulher deixa de ser chamada para algumas reuniões. Depois, suas opiniões passam a ser ignoradas. As críticas aumentam, os acertos deixam de ser reconhecidos e ela começa a ser isolada. Quando percebe, já não ocupa os espaços que antes eram seus.
Muitas mulheres deixam de reconhecer a profissional que sempre foram. O assédio não tira apenas a tranquilidade. Muitas vezes, tira a identidade. Uma das consequências mais cruéis do assédio moral é fazer a mulher deixar de confiar em si mesma. Ela passa a se perguntar o que fez de errado. Revê cada palavra que disse, cada atitude que tomou e se pergunta se está exagerando, se entendeu errado ou se o problema é ela. Sem perceber, passa a duvidar até da própria sanidade.
Reconhecer esse processo nem sempre é fácil. Crescemos vendo diferentes formas de violência contra as mulheres serem normalizadas e fomos ensinadas a suportar, compreender e manter a paz, mesmo quando isso custa a nossa própria saúde física ou mental. Por isso muitas demoram a perceber que o que vivem não é apenas um ambiente de trabalho difícil. É violência.
Como se não bastasse toda a dor vivida, quando finalmente encontra coragem para falar, ela deixa de ser vista como vítima e passa a ser julgada. Dizem que está exagerando, que é emocional demais ou difícil de lidar. Perguntam por que demorou tanto para denunciar, como se o silêncio fosse uma escolha e não uma consequência do medo.
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