Quando a propaganda entra em campo

Por isso, o problema não está na CazéTV. Está no ambiente em que ela atua. O entretenimento contemporâneo é sustentado por dinheiro, patrocínio e disputa por atenção. Nenhuma plataforma oferece grandes eventos só por generosidade. Se as casas de apostas ocupam vinhetas, cenários, bordões e intervalos, é porque encontraram um espaço legal, econômico e político disponível. A empresa explora uma possibilidade, e quem deveria definir os limites dessa possibilidade é o Estado.
Nesse sentido, a história da publicidade já mostrou como isso funciona. Os cigarros foram, por décadas, vendidos como símbolos de liberdade, elegância e sucesso. Não desapareceram das propagandas porque as empresas reconheceram espontaneamente o dano que causavam, mas porque leis impuseram restrições. Com as bebidas alcoólicas, ocorreu algo semelhante: a redução de excessos só veio quando a regulação começou a limitar horários, formatos e públicos. O mercado raramente interrompe sozinho aquilo que continua sendo lucrativo.
Com as BETs, repetimos o mesmo roteiro, agora em velocidade digital. A aposta aparece misturada ao futebol, como se fosse uma extensão natural da torcida. O espectador já não é convidado apenas a assistir, mas a transformar cada escanteio, cartão ou gol em possibilidade de ganho. Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo esse mundo em que a experiência é mediada por imagens e mercadorias. Hoje, o espetáculo não vende somente o jogo: vende também a sensação de que todos podem lucrar com ele.
Seria injusto exigir que uma plataforma privada resolvesse, sozinha, uma questão social que ultrapassa sua função. A CazéTV fala com o público de seu tempo e financia transmissões abertas dentro das regras existentes. A crítica deve se dirigir, sobretudo, ao poder público, que permite que a tecnologia avance mais rápido do que a proteção da sociedade. Quando a lei se cala, a propaganda fala sem intervalo.
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